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A vida não é só preto e branco. Ou pelo menos não devia ser. Tem muitas cores e muitos tons. É demasiado variada para se ficar preso a uma coisa , um sitio ou a uma maneira de fazer as coisas. Adoro pedalar em grupo, isso nem se discute, mas há muito tempo atrás descobri o que mais tarde se tornou mais que uma opção, quase uma necessidade. Pedalar só. Só eu, só silêncio, só btt, só natureza, só independência, só a minha respiração, só com as minhas manias, só com as minhas opções e só com as minhas responsabilidades. Só.
Como do ar que respiro ou da água que bebo, por vezes necessito da solidão, do silêncio, da aventura de descobrir na mais pura das autonomias, os trilhos que por esses montes se escondem.
A necessidade era grande, por isso, sábado de manhã às 8:00 já estava no café a abastecer o bandulho e a mochila.
Durante um dos últimos reconhecimentos para os Borlius de VPA, descobri por acaso umas marcações nas pontes do rio Âncora que só podem ser do Caminho de Santiago da costa. Desde essa altura que fiquei com a vontade de descobrir este troço entre Viana e a fronteira. Ia começar hoje.
Por isso, os primeiros 25 km foram o habitual percurso para Viana. O mais junto ao mar possível. Trilhos com algum empredrado ou muito godo, e os divertidos singles nas matas da Gelfa e de Carreço para desenjoar. Mais um pequeno single descoberto para juntar à colecção e um pouco de "salero" de uma pequena descida a obrigar a descer o selim e a rezar para que os pneus se agarrassem às pedras molhadas como lapas.
Foi um troço rápido e plano. O barulho ritmado dos godos, o som do vento, a mordedura do frio e a suave reclamação dos músculos, acompanhados pela paisagem de um mar de inverno,fizeram com que deslizasse para um genero de sonho acordado. Mente limpa, apenas o ressoar do batimento do coração.
Já depois da visita da praxe ao fim do molhe em Viana, enquanto comia o "reforço" ainda perguntei sem sucesso a quem passava se sabia onde começavam as marcações do Caminho.
Fui subindo a encosta por estrada para logo encontrar as ditas setas amarelas. Daí para a frente, foi uma brincadeira segui-las. O caminho está muito bem marcado.
Na primeira parte, até pouco antes de Carreço, é maioritariamente em caminhos empredradas pelo meio do casarío.
Entre Carreço e Paçó, o caminho passa por zonas muito bonitas. Paisagens rurais que parecem tiradas de ilustrações antigas. Calçadas antiquíssimas entre muros de pedra carregados de musgo dos antigos solares minhotos.
Depois de Paçó e até Ancora, o caminho sobe um pouco pelas matas até à Cividade, num misto de calçada e terra, para depois descer e atravessar o rio Âncora junto da tal marca que começou tudo.
As luzes estão todas apagadas. Estou curado :D. Sinto-me em paz comigo e com os outros. O tempo para estar só, terminado. Agora ansiava por me sentar a saborar as delícias de um almoço num certo restaurante de Caminha. Mas isso já é outra história. E com companhia Abraço,
P.S. Galeria Completa...
Publicado originalmente no forumbtt.net
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