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O Dobro ou Nada
Depois de um dia como ontem, perfeito a todos os níveis em termos de BTT, o que fazer hoje? Estou mais habituado a fazer estes passeios de dia inteiro ao domingo. No dia seguinte estou a trabalhar e com uma vontade imensa de voltar aos trilhos. Revejo-os de memória e entre emails e telefonemas, recordo a liberdade de um domingo, uma bike e um trilho. Mas hoje não é dia de trabalho, por isso que raio estou aqui a fazer?? A sonhar acordado?
Não sentia o empeno de ontem por isso é com alguma surpresa que faço os primeiros quilómetros debaixo da ditadura das dores musculares. Mas depressa desaparecem substituídas pelas cores e cheiros de uma tarde de Outono. Enquanto vou fazendo os trilhos de ontem, mas agora no sentido contrário, vou procurando uns óculos que se perderam. Não aparecem. Algum esquilo os encontrou antes de mim
Mas não me sinto defraudado. Uma das melhores coisas de ter uma nova bike, é que todos os velhos trilhos se transformam em novos. Temos de os estrear mais uma vez no novo brinquedo
Foi interessante perceber as diferenças de comportamento do Ferrinho a descer os trilhos que ontem tinha subido e vice-versa.
Estou a admirar a paisagem e os meus olhos pousam nas eólicas de St. Luzia e sou assaltado por um impulso, uma vontade de ir lá acima.
Nestes primeiros quilómetros feitos no Ferrinho ainda não pude avaliar uma verdadeira subida e correspondente descida. É já a seguir
A parte inicial, de asfalto e depois de estradão com bom piso, corre bem e faço-a sem problemas. Mas depois a inclinação aumenta, o piso piora e o cansaço de ontem mostra-se. Começa a ser mais duro. Estou quase para desistir. Nesta altura todas as desculpas insignificantes parecem, cada uma delas por si só, serem razão suficiente para voltar para trás: - O reforço que não trouxe. - A água que é pouca. - A noite que agora chega mais depressa... Mas não.. Detesto descer e desperdiçar o esforço. E a descida por onde planeei é bem mais divertida. E alguma coisa me puxa para cima.
Quando chego ao entroncamento onde tenho de decidir se continuo ou se volto já para baixo, nem hesito.. pensei que ia ter de me convencer a subir mas não. O único caminho aceitável é para cima.
O alívio por já ter ultrapassado o pior tornou os últimos metros mais ligeiros. Embora me pareça que o meu Ferrinho até se defendeu bem a subir, o cansaço pode estar a afectar demasiado as minhas sensações. Não fiquei convencido. Tenho de voltar a subir mas mais fresco para as confirmar.
Finalmente estou cá em cima. Quem estiver a ler este relato provavelmente estará a pensar que estou a 2000 metros hehe mas nada disso.. nem um terço disso, mas sinto-me como se estivesse a três vezes mais alto
O sol está a pôr-se sobre o oceano. A luz está com aquela qualidade de dourado tão própria de uma tarde de Outono. Tiro umas fotos do Ferrinho, faço a chamada telefónica da praxe para localização e status
Deve ser esta a sensação que leva algumas pessoas a arriscar a pele para subir ás montanhas mais altas desta vida. A solidão, o silêncio, a satisfação de ter conseguido e o sentimento de total liberdade. Poder. Não há barreiras a toda a volta. Por segundos perdes-te na ilusão que se quisesses, assim, sem mais nem menos, podias partir em qualquer direcção que escolhesses. Apenas porque sim. Apenas porque apetece. Deve ser bom voar como um pássaro.
Mas estes momentos duram pouco
Entro no estradão e rapidamente estou a "voar" pela encosta abaixo. E as minhas asas são de ferro hahaha
Passo a ligeira rampa a meia encosta e deleito-me com a certeza que daqui até ao fim, a roda da frente não mais volta a estar mais alta que a de trás. É sempre a descer O estradão nesta fase tem muito cascalho grosso. A cerca de 50 km/h, neste piso, a Summer Season é um pouco instável. Sinto que flutuo lateralmente enquanto desço. Quase como conduzir um carro em piso molhado. Nos limites da aderência.
A vegetação dos dois lados está alta e cerrada o que torna a visibilidade mais reduzida. Ao sair de uma curva, deparo-me com um carro que sobe a encosta. A esta hora de certeza que o casalinho procura no alto da serra, momentos muito menos calmos que os meus à uns minutos atrás
Mas para já, a adrenalina é de outro tipo. Vou muito depressa e não há espaço para passar ao lado do carro. Faço uns bons metros a deslizar na gravilha e paro uns escassos dois metros antes do capot.. foi por pouco..
Mais abaixo, o estradão fica com o piso mais compacto e liso. Aqui é diferente
Estou de volta á Cividade e volto a descer o single de ontem até Vila Praia de Âncora. Desta vez sem paragens
Faço um reforço no mesmo café de ontem e mais bem disposto atiro-me com renovadas energias aos poucos quilómetros que ainda restam.
Estou alegre. Brinco com quem passa na rua e chego mesmo a fazer uma "corrida" com um miúdo na ciclovia.
Enquanto rolo os últimos metros e admiro o sol que se esconde atrás do horizonte, percebo...O Dobro ou nada. Era isso que me puxava para cima. Tinham de ser dois dias memoráveis de BTT.
Pedalem, o resto é paisagem
Bravellir
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Grande relato e que grande passeio....
Parabens e continua assim
Um grande abraço
Silvio